Dos sete magníficos

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Quando pisam o palco despem a vida que é, afinal, a sua. Assumem outra pele, camuflam as dores, alegrias ou incertezas que a alma traz. A pele que lhes foi estranha entranha-se-lhes pelo corpo adentro. E, porque o ofício assim o impõe, há outra vida a acontecer através deles.

São gente com histórias dentro, aqueles que, em Actores, levaram ao palco do São Luiz Teatro Municipal um pouco de si. Escrever “pouco” é, claro, redutor, pois aquilo a que o público tem o privilégio de assistir é grandioso. As partilhas de Nuno Lopes, Miguel Guilherme, Bruno Nogueira, Rita Cabaço e Carolina Amaral/Luísa Cruz são de uma generosidade imensa e revelam um pouco do muito que eles são: há sonhos, pesadelos, desilusões ou tristeza. A conduzir os relatos está uma voz por vezes acutilante, mas noutros momentos serena ou, até, vazia de qualquer comoção. É o encenador, Marco Martins.

Os seis magníficos. Começam por se apresentar a uma audição. Numa folha branca está o nome que lhes foi dado e a idade que carregam. Posam de frente, de perfil, pronunciam-se sobre a sua disponibilidade. Despem-se de quem são – e, se necessário for, das roupas que trazem – para dar vida ao texto. Cumprem o estado de alma exigido pela voz que os decidirá aptos, ou não, para o papel pretendido porque, não sendo fácil encontrar trabalho enquanto actor, é isso mesmo que sonham/ambicionam: sê-lo. (É incrível o quão diferente um mesmo texto consegue ser quando, e em boa verdade, apenas difere o estado de alma.)

As histórias pessoais vão coexistindo com outras a que deram corpo e, sem que o espectador o espere, vê serem reconstruídos outros textos, outros tempos, espectáculos e salas, até.

Assim que Bruno emite um som ou faz um ligeiro movimento a sala reage. Não tardará a rir à gargalhada com ele, seja quando partilha a frustração de ter representando, em pleno El Corte Inglês, um pastor acompanhado por sua ovelha, seja quando quase beija Nuno. E este beijo parece causar em Nuno um ataque de riso. Quanto mais se tenta controlar – todo torto na cadeira – mais vermelho fica, acabando por contagiar quem, com ele, partilha o palco. Aquele riso logo se percebe essencial ao decorrer do espectáculo.

Outros momentos, aparentemente, espontâneos houve, como aquele em que Rita parece bloqueada por uma qualquer dor. O encenador pergunta-lhe se está bem para, depois, lhe exigir que continue. É assim, em teatro. Dores, físicas ou da alma, são absorvidas pela entrega. E Rita é de uma entrega incrível. Quando toda ela é loucura. Quando toda ela é movimento: no palco – e tendo decorrido já grande parte do espectáculo – a palavra “INTERVALO” mostra-se a vermelho, as luzes acendem, o público levanta-se, conversa, vê o telemóvel, há quem saia – e Rita continua a mover-se, como se se expurgasse de algo. É a única, ali. Não há cansaço ou barulho que a demovam. Há, sim, esta entrega absoluta.

Em palco está Miguel ou um gato? O rosto transforma-se, o olhar é expressivo. O Miguel que, a Leiria, quis levar um D. Quixote hilariante, teve de o executar mais contido. Aquele Miguel cuja mais recente “morte” aconteceu em novela. E depois Carolina que revive outro falecimento, depois de se ter juntado a esta equipa incrível apenas a três semanas da estreia. Carolina substituiu Luísa que, pelo cansaço dos trabalhos acumulados, pediu para sair. Mas Luísa está lá, afinal, através da jovem Carolina. E, com ela(s), acontecem duas partilhas marcantes: no dia em que a mãe foi a enterrar, Luísa subiu ao palco; o desejo profundo da actriz substituir Isabelle Huppert e, finalmente, cantar que, contudo, não aconteceu. Carolina “foi” Luísa, mas conseguiu existir por si. Afirmou-se como a actriz com história(s) dentro que, também, é.

Actores esteve no São Luiz Teatro Municipal. Segue, agora, para o Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, depois para o Teatro Nacional São João, no Porto, para o Cine-Teatro Louletano, em Loulé, ou para o Centro de Arte de Ovar. Há, ainda, muitas oportunidades para assistir a este espectáculo grandioso.

(Ah, os magníficos não são seis, mas sete. Aplausos, de pé.)

(Texto publicado na Festmag, intitulado “Actores: São, afinal, sete os magníficos”.)

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De um cantinho de leitura

Livro

 

Era apenas uma sala. Uma apenas, a sala que recebia os alunos que frequentavam 1.º, 2.º, 3.º e 4.º anos de escolaridade.

Fomos nós que a inaugurámos e, quando isso aconteceu, éramos muitos. Muitos mesmo. As secretárias começavam a alinhar-se junto ao quadro até muito próximo da porta. Os tempos eram outros, foi há mais de vinte anos.

Os muitos que éramos, passámos a ser menos, pois no final desse primeiro ano de funcionamento da escola muitos seguiram para a escola que os receberia para o 2.º ciclo.

A sala de aula na nossa aldeia era especial. (Escrevo “era” porque, sinal dos tempos, a escola acabou por fechar e, hoje, lá está guardadora zelosa das minhas histórias e das de tantas outras crianças que nela aprenderam. Como gostava que, um dia, lhe fosse dada vida outra vez…).

Era especial, aquela escola. Tinha tacos, janelas amplas. Os trabalhos que íamos fazendo ao longo dos meses eram pendurados nas paredes e, muitos deles, próprios de cada estação do ano. Recordo as folhas castanhas coladas em cartolinas, assinalando a chegada do Outono.

Junto a uma das três janelas houve um cantinho da leitura. Talvez tivesse apenas uma estante com livros que não seriam muitos, mas os suficientes para alimentar a curiosidade. No chão, estendia-se uma manta que, feita de trapos, tinha várias cores e texturas. Sobre essa manta, algumas almofadas sobre as quais nos sentávamos quando a professora nos deixava entrar naquele sítio mágico e repleto de aprendizagens que ainda não nos tinham sido reveladas pelos manuais escolares.

Recordo-me de ter lido, nessa manta, sobre reis. Terá sido numa sexta-feira, após ter terminado a tarefa que nos fora solicitada? Não me recordo de quando, exactamente, nem em que contexto. Sei que a possibilidade de, ali, nos sentarmos tinha o sabor da recompensa pelo bom trabalho desenvolvido. Lembro-me do Sol a invadir a sala, do conforto que senti ao cruzar as pernas para, ali, aprender a gostar ainda mais de livros.

 

(Li hoje, num blogue que acompanho, sobre espaços de leitura em escolas do 1.º ciclo, em Leiria. E a recordação não tardou. Apesar de algo imprecisa, soube a conforto. Foi como que um reviver da magia que aquele cantinho da leitura, naquela escola de sala única na aldeia, tinha/teve.)

 

De dois dias que deviam ter sido mais

 

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Killarney. Dois dias, apenas. Merecia mais, muitos mais.

Chegámos vindos de Rock of Cashel. E foi de lá que saímos rumo a Gap of Dunloe, por um caminho estreito, sinuoso, mas incrível. E depois Sneem, Waterville ou Kenmare.

Percorremos grande parte do belíssimo Ring of Kerry. Por montes e vales e, quando demos por nós, já se avistava o mar lá ao longe.

Do castanho, ao verde, ao azul. De sítios desertos a outros com algumas casas. Habitantes vimos poucos e, esses, vestiam impermeáveis e calçavam botas de borracha. Um deles cuidava da vedação, reforçava-a batendo com força na estaca grossa de madeira. Ovelhas por aquilo e por ali.

O tempo esteve quase sempre cinzento. Convidava a que nos sentássemos junto a uma lareira para assistirmos ao cair da chuva do lado de lá da janela. Junto ao mar, o vento frio e o nevoeiro não nos permitiram aproveitar muito do que nos pareceu ser um cenário grandioso. Mas, nem por isso, deixámos de percorrer o percurso feito por Charlie Chaplin quando, a Waterville, se deslocava para férias.

Fomos regressando a Killarney e, com a luz do dia prestes a despedir-se, entrámos no parque nacional, nós e tantas outras pessoas: desde turistas a residentes. Incrível a quantidade de pessoas que vimos caminhar ou correr, sozinhas ou acompanhadas, ali ao chegar da noite.

E, no Ross Castle, um casal posava para duas máquinas fotográficas. As damas de honor vestiam-se de vermelho intenso e riam com as poses dos recém-casados. Um dos padrinhos teve de segurar no véu e atirá-lo, para que, na fotografia, simplesmente voasse.

Deixámos para a manhã do dia seguinte a Muckross Abbey e a Muckross House. E ainda bem que o fizemos, pois o percurso que as separa é perfeito para iniciar o dia.

À noite brindámos ao sabor de Murphy’s.

(Voltava. Quem sabe, um dia. Se assim for, num momento do ano em que os dias sejam maiores.)

Do valor que a vida tem

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«Condenado à morte». Di-lo não uma, mas três vezes. E o tom agastado com que o diz mostra que ao próprio lhe custa a crer numa sina que é, tristemente, sua. A luz vermelha – intensa, mas sombria – que o recebe em palco é como que um pronúncio do desfecho que se aproxima.

Ao condenado não lhe descobrimos o nome, nem o crime cometido. Sabemo-lo apenas pai, marido e filho que às suas deixará órfãs caso a sentença proferida não conheça outro desenvolvimento.  A esperança de que esse infortúnio possa vir a ser alterado está sempre lá, dá-lhe alento, mesmo que efémero e vão.

Virgílio Castelo é quem veste as dores, os lamentos e a esperança deste homem que, envergando boas vestes e educadas maneiras, se viu privado do direito à vida. “O Último Dia de Um Condenado”, da autoria de Victor Hugo, sobe ao Teatro Armando Cortez com encenação de Paulo Sousa Costa. Trata-se de um monólogo através do qual são narrados os estados de alma de um condenado que, depois de o ser, partilha com a plateia as penosas seis semanas. E qual não é o desalento quando, ao riscar os dias na parede, o condenado percebe que é o último dia? Restam-lhe horas, portanto.

«Condenado à morte». Vai repetindo a frase que o fere e, sempre que o faz, sente-se, no esgar que se lhe desenha na face, a dor dilacerante que o consome. Fez-se sabedor do quão valioso é viver. E, talvez por isso, queira recuperar a possibilidade – que outrora negou – de cumprir trabalhos forçados, mesmo que durante árduos e penosos anos. Mas a luz da esperança insiste em manter-se acesa dentro dele.

Raras vezes dois gendarmes aparecem em palco. Virgílio Castelo está, sobretudo, só. Contudo, o protagonista não o está. Pela voz do actor fazem-se ouvir muitas outras personagens: a ingénua Marie que não reconhece aquele «senhor» que se diz seu pai; as jovens histéricas que, na Praça de Grèves, anseiam por que a guilhotina cumpra a sentença – elas e toda a multidão que rejubila perante triste “espectáculo”; o guarda que lhe suplica pelos números da sorte; um sobranceiro e gozão prisioneiro que lhe cobiça o casaco; ou o padre, perante o qual confirma não estar preparado para perder a vida. O crime não o nega, mas nem por isso lhe revela verdadeiramente os contornos.

Vida. É esta a verdadeira palavra a reter em “O Último Dia de um Condenado”. O valor dela. O direito a ela.

O texto foi publicado no século XIX e contribuiu para um debate aprofundado sobre esta temática. A peça subiu ao Teatro Armando Cortez em dezembro, quando se assinalavam os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal (o primeiro país da Europa a fazê-lo). Uma produção da Yellow Star Company em cena, em Lisboa, até 28 de janeiro.

 

Fotografia: Yellow Star Company

 

(Texto publicado na Festmag. Entretanto, outras palavras vão-se alinhando.)

 

De um sítio imperdível

 

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Semanas antes de rumarmos à Irlanda fora-nos recomendada uma visita a Rock of Cashel. O entusiasmo na argumentação prometia, dava conta de um destino ao qual se associava o adjectivo “imperdível”.

Apesar de, nas poucas horas que lhe dedicámos, Dublin nos ter agradado, certo é que respirámos de alívio quando deixámos a confusão própria de uma grande cidade. [O ambiente urbano, mesmo com muito para oferecer, não figura(va) na nossa lista de prioridades/preferências.]

Com Dublin cada vez mais distante, fomos sendo presentados por um imenso verde, cujo tom se tornava mais intenso sempre que o céu escurecia. O desconforto de voltar a conduzir pela esquerda foi rapidamente ultrapassado e, resolvida essa pequena questão, coube-nos aproveitar o belo país que nos recebia.

No dia anterior percorrêramos, por breves instantes, a M50. Parámos numa estação de serviço para pagar um toll [algo semelhante a uma scut; do qual só nos apercebemos ao dar uma olhadela nos papéis que, no dia anterior, nos foram entregues aquando do aluguer do carro]. Um “balde de café” para cada um. Continuámos.

À medida que nos fomos aproximando de Cashel, logo nos apercebemos do motivo pelo qual a argumentação das semanas anteriores fora tão entusiasta. Rock of Cashel erguia-se imponente. Mesmo tratando-se de uma das principais atracções turísticas da Irlanda, foi possível visitar tranquilamente o (em gaélico irlandês) Carraig Phádraig, também conhecido como Cashel of the Kings .

E o Sol?!

Ah, o Sol. Deu ares da sua graça assim que colocámos os pés no Condado de Tipperary.

Rock of Cashel merece, efectivamente, ser visitado: pela beleza do sítio em que se eleva, pela riqueza que guarda e por brindar quem o visita com a história deste país, do seu povo, de reis, religião ou arquitectura.

Se Rock of Cashel é imperdível, também o é o passeio pela própria localidade. Foi, logo ali, que descobrimos uma organização como ainda não tínhamos encontrado. Os edifícios cuidados, e tantos deles coloridos, desafiavam-nos a permanecermos por lá. Contudo, o roteiro audaz desenhado ainda em Portugal exigia que seguíssemos caminho. Killarney era o destino.

 

(As palavras que, por aqui, se têm escrito sobre a Irlanda não estão a seguir, pelo menos ainda, o trajecto traçado. Foram mais de 1000 quilómetros percorridos. Cada um deles mereceu o esforço. Cinco dias que, a bem dizer, foram quatro.)

 

Do conforto para a noite fria

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Dublin.

Ruas repletas de pessoas. Caminhavam uns sem se darem conta dos outros. Chegar ao destino parecia justificar os “atropelos” que se faziam nos próprios passeios. Pessoas, tantas pessoas.

A Dublin apenas conhecemos as cores que a noite lhe dá. Com o frio de Outubro a gelar-nos as mãos, fomos por ruas estreitas e empedradas do Temple Bar. Tanta vida a acontecer ali. Tanta música e tantos pubs. Os grupos juntavam-se em conversas animadas para, depois de uma cerveja, partilharem a mesa de jantar.

Houve algo na fachada do The Old Storehouse Bar & Restaurant que nos fascinou. Entrámos e, deixada a rua do lado de fora, logo percebemos que a música ao vivo nos convidaria a ficar.

Assim foi.

Pedimos duas Guiness, enquanto muitos já tratavam de jantar. As conversas faziam-se em vozes altas, mas nem por isso se deixava de trautear a música apresentada por quem ditava os acordes da guitarra.

O pub não tardou em encher. Turistas, como nós. Estudantes, claramente. Outros tantos saídos do trabalho. Tantas nacionalidades se sentaram, ali.

Adoptámos uma hora de jantar que não aquela a que fomos habituados. Pedimos: Irish Beef Caserole Irish Cottage Pie. Que bom, tão bom. Nestes pratos encontrámos conforto para a noite fria que, daí a instantes, percorreríamos. Sabores ricos, quentes e indispensáveis para se sentir um pouco do muito que a Irlanda é. Isso.

 

(Está frio. São um Irish Beef Caserole, um Irish Cottage Pie e duas Guiness, se faz favor.)

De uma casa aqui, três acolá

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Dia cinzento. A chovia prometia cair. E caiu, serena.

O caminho era estreito. Para que dois carros se pudessem cruzar, era preciso que um cedesse passagem ao outro.

Fomos, perseguidos por um dia que, sabíamos, se poria cedo.

Atravessámos vales e montes deslumbrados pela imensidão da paisagem.

Uma casa aqui. Três acolá. E quilómetros percorridos sem que alguém se avistasse. Quebrámos a rotina dos nossos dias, descobrindo costumes de outros que se vestiam de camisolas grossas, impermeáveis. Calçavam galochas (a que, durante muitos anos, chamei de botas de borracha).

A natureza no seu esplendor. Em que ao verde dos campos se juntavam, na perfeição, as cores de outono.

Irlanda. A terra que queríamos descobrir e que, felizmente, retirámos da “lista dos desejos”.

 

(Depois de ter feito login, o wordpress assinalou os dois anos deste espaço. A escrita, por cá, já foi mais frequente. Vou regressando, garanto. Escrevi, depois de dias a fio com vontade de o fazer. E hoje ao som de Bon Iver, outra vez.)