De um candeeiro na ilha

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Quantas histórias se terão desenrolado à luz do candeeiro que, ali junto ao mar, muitos vê chegar e a todos vê partir? Quantas? Tantas, decerto. Histórias de quem ali nasceu e, por aquelas ruas, quis ficar. Ou de quem, noutros pontos crescido, ali se (re)encontrou. E depois as dos outros, aqueles que no muro se sentam, mas não se demoram. Há, pois, outras paragens para descobrir nesta ilha que, apesar de pequena, é imensa: nas suas gentes, paisagens ou petiscos.

Talvez seja quente, a luz do candeeiro que se ergue junto ao mar. É-o, certamente, tal como a alcatra de peixe que, tão perto, se cozinha logo cedo pelas mãos do sr. José. Quantas histórias terá o Sr. José? Ai… tantas… e sempre partilhadas num jocoso tom que lhe é próprio e que ao visitante fará corar de muito rir.

 

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De uma Festa que é de Cinema Francês

Festa do Cinema Francês

 

Regressei à Festa. Sim àquela Festa que tem direito a caixa alta quando à palavra se dá o começo. Escrevo sobre a Festa do Cinema Francês que me foi apresentada pelo “dever”, mas logo se tornou num prazer.

Regressei a ela numa sala diferente, mas imponente. Quando sentada, foi como se estivesse na Coimbra das minhas pessoas, a cidade que me deu a descobrir esta Festa que se me entranhou como se, desde a primeira edição, dela fizesse parte.

Assistimos, tão somente, a dois filmes. Sim, apenas dois. Poucos, mas incríveis. Sobre pessoas, para pessoas, com tantas histórias dentro. Peripécias de, quase, fazer chorar de tanto rir (mesmo que o riso fosse, de certa forma, estranho ou proibido pela seriedade dos assuntos em questão). Personagens simples, mas ricas: em dilemas ou singularidades.

Desde então que as palavras me têm estado na ponta dos dedos. Ali numa persistência não escreveria chata, mas… “firme”.

Talvez tenha sido aquela máquina de escrever (que sempre quis ter e, por isso, figura na longa dista do “um dia, quem sabe”)… Foi, talvez, quem nela se debatia pela história que o catapultaria para páginas por tantos lidas. Mais do que a história do (verdadeiro) escritor, talvez tenha sido a história daqueles dois, os seus dilemas, conquistas, derrotas, momentos de euforia, mas também de desassossego. Eles, apenas eles: Monsieur & Madame Adelman.

Ou então… conhecer-se cada detalhe da rua, cada pessoa, cada passo dado. E, num acaso, algo desperta o quebrar da rotina… e do olhar desprovido de sentido nasce algo mais profundo. A música que, escutada só apesar dos muitos em redor, faz soltar um “pedido de resgate”. Não mudou muito, apenas o essencial em tantas vidas e, tudo, por Rosalie Blum.

O cinema francês tem disto. Histórias com pessoas dentro. E, curioso, pessoas com histórias dentro. Foi como se, no Cinema São Jorge, tivesse estado no TAGV, porque foi lá que se me entranhou este – como escrevê-lo? – gosto. É Festa. Uma Festa com caixa alta que merece todos os aplausos.

 

(Há tanto que aqui não vinha. Fi-lo numa fugida. Soube – muito bem – soltar palavras que, não esquecidas, ficaram de certa forma retidas.)

 

 

Fotografia: Monsieur & Madame Adelman, Festa do Cinema Francês

Do que tenho para te escrever

lapis

→ Por Gente com Histórias Dentro

Tanto que tenho para te escrever que nem sei por onde começar.

As novidades atropelam-se umas às outras, querendo ser todas partilhadas  ao mesmo tempo. Seguro-as, contudo, como quem as quer domar. Caso contrário resultará um gatafunho tão confuso quanto está o meu pensamento.

Ontem não choveu. Chovia há muitos dias, sabes. E como jamais vi. Poucos foram os que ousaram sair à rua. Nas lareiras, as cavacas aconchegaram os ânimos de quem precisava de sair para o campo.

 → Por Regina Cardoso da Graça

A mim nada me aconchega, seguro as gotas de chuva dentro dos olhos. Há seis anos que estás desaparecido, a tua foto andou por aí, nas paredes, nas montras, nas redes sociais.

Agora já ninguém quer saber, dizem que foste embora por vontade própria. Não acredito no que dizem as velhas, embora saiba que és tu mesmo aquele que elas viram durante a excursão ao Bom Jesus.

Meu Deus, dizem que tens mulher e filhos, que andas como um figurão de jipe novinho em folha.

Seis anos é uma vida, vou entregar a casa ao banco. Quero ir embora e voltar a ser feliz por conta própria.

Imagina, é desta que irei casar com o Fernando, o teu primo que sempre chamaste de falhado. Se pensas que é vingança enganaste, já não tenho é mais tempo para continuar a morrer, isso sim.

(“Histórias a Duas Mãos” resulta de textos escritos por duas pessoas: eu, a Gente com Histórias Dentro, e Regina Cardoso da Graça. O nosso ponto de partida será sempre uma ilustração feita num ápice para, também num instante, escrevermos aquilo que a inspiração do momento pretender. Uma dá o ponto de partida, a outra continua. Estaremos por cá, regra geral às quintas-feiras, apesar de hoje ser domingo.)

 

Das pipocas que rolam pelo chão

pipocas

→ Por Regina Cardoso da Graça

– Nem quero saber que resmungues e me olhem de lado, quando vou ao cinema é para comer pipocas. Sem elas nenhum filme me sabe a nada. Sim, escolho o que quero ver pelo sabor dos cartazes.

– Inventas cada teoria, és mesmo excêntrica!

Alexandre já desistiu de compreender a namorada. Se calhar por isso é que se compreendem tão bem.

– Sal?

– Perfeito, com uma pitada de pimenta!

Ela sabe que Alexandre a compreende pipoca por pipoca. Entrelaçam as mãos a cada duelo do faroeste, suspiram ternuras por todos os fantasmas desfigurados que espreitam por entre as sombras da noite. Basta um golpe de karaté para ambos terem a certeza de que o seu amor será eterno.

Os dois estão de acordo, para filmes românticos não há paciência. Adormecem logo nos primeiros minutos e até as pipocas caem e rolam pelo chão. Que desperdício…

→ Por Gente com Histórias Dentro

Tinha sido, afinal, numa bilheteira de cinema que se viram pela primeira vez. Ele atrás dela na fila. Depois do bilhete, ela pediu o pacote de pipocas:

– Tamanho médio, se faz favor.

Ele suspirou e adivinhou o desassossego que sentiria em cada dentada que, caso se sentassem perto um do outro, escutaria.

O telemóvel tocou. Sentiu alguém impaciente atrás dela, por isso apressou-se em sair da bilheteira. Como as pressas tantas vezes dão em vagares, acabou por tropeçar sobre si. Esforçou-se por agarrar o pacote de pipocas tamanho médio, mas, infortúnio o seu, deixou-o cair sobre o belo rapaz que a olhava enfurecido.

Foi assim que os olhos dela descobriram os dele. Ao vislumbrar a face rosada dela, ele esqueceu o mar de pipocas em que se afundava. Não a quis nunca mais triste ou envergonhada, por isso depois de pedir o seu bilhete acrescentou:

– E era, também, um pacote de pipocas. Tamanho médio, se faz favor.

(“Histórias a Duas Mãos” resulta de textos escritos por duas pessoas: eu, a Gente com Histórias Dentro, e Regina Cardoso da Graça. O nosso ponto de partida será sempre uma ilustração feita num ápice para, também num instante, escrevermos aquilo que a inspiração do momento pretender. Uma dá o ponto de partida, a outra continua. Estaremos por cá às quintas-feiras.)

 

Dos pés que me doem

pegada

→ Por Gente com Histórias Dentro

Doem-me os pés.

Não, há algo que me morde os pés e me acorda.

Estou exausta, tão exausta. Não sei como cheguei a casa. Esqueci os passos que dei, mas sei que me doem os pés. Não, mordem-me os pés e o desconforto que sinto assemelha-se a uma picada fina, mas persistente, insistente.

A velha, na paragem, resmungou ainda pela manhã. Disse que era uma falta de respeito entrar pelo autocarro adentro sem ceder passagem aos que tinham chegado primeiro. Passou-me ela à frente, assim como outros que, dia após dia, se empurram nesta selva habitada por rostos vazios. Passaram-me à frente como se não tivesse sido a primeira a chegar. E a velha resmungou com uma razão que não era a sua.

Doem-me os pés.

É esta correria, a minha e a de tantos outros, que me morde os pés.

→ Por Regina Cardoso da Graça

Mas alto e pára o baile! Doem-me os pés, preciso só de descansar um pouco. As velhas é que resmungam, não vou cair nessa.

Nem sequer tenho calos, ninguém me vai pisar. Hoje tenho as danças de salão, vou ao concurso de valsa. Dores de pés não se assustem, prometo-vos fazer levitar.

(“Histórias a Duas Mãos” resulta de textos escritos por duas pessoas: eu, a Gente com Histórias Dentro, e Regina Cardoso da Graça. O nosso ponto de partida será sempre uma ilustração feita num ápice para, também num instante, escrevermos aquilo que a inspiração do momento pretender. Uma dá o ponto de partida, a outra continua. Estaremos por cá às quintas-feiras.)

 

De um avião de papel

aviao

→ Por Regina Cardoso da Graça

Quando chegou aos sessenta anos, Judite prometeu a si mesma que não morreria sem conhecer a Torre Eiffel. Conhecer é como quem diz, queria era subir até ao topo, quanto mais alto melhor. O que fazer, sempre fora assim, entusiasta das alturas.

Adolfo, como sempre, escarnecia de tais ideias. Casados há quase trinta anos, sabia como ninguém das esquisitices da mulher. Raramente saiam para passear porque ela enjoava de carro, como é que queria ir até Paris?

– De avião – argumentava logo Judite de um jeito categórico e mostrando um sorriso atrevido de adolescente.

– E de aviãozinho, não? – ironizava Adolfo, ao mesmo tempo que rasgava uma folha da lista telefónica e, com movimentos rápidos e precisos de mãos, fazia as dobras ao papel para o transformar num jacto a atravessar a sala.

Fingindo-se furiosa, Judite reclamava daquelas infantilidades, sabendo de antemão que com isso estavam abertas as hostilidades. Em escassos minutos a lista telefónica ia à vida. A sala de jantar era bombardeada e todas as orelhas e narizes ficavam atingidos.

→ Por Gente com Histórias Dentro

O que seria da vida se não fossem os sonhos? Por isso Judite sonhava com a Torre Eiffel que lhe arrancava um suspiro atrás do outro.

Apesar de jamais o partilhar, sabia que não chegaria a percorrer Paris, não lhe provaria os sabores, não lhe veria as cores, não lhe sentiria o frio de Inverno. Só de pensar em viajar de avião tremiam-lhe as pernas, enchia-se de suores e calafrios incómodos. Imaginava-se a ficar sem ar e a apertar as mãos junto ao peito dorido pela insegurança. Mais do que medo, tinha pavor do desconhecido.

Sim, Judite sonhava com tudo aquilo que desconhecia, mas não tinha coragem para descobrir. O conforto do lar partilhado com Adolfo bastava-lhe. Não precisava de sair para conhecer o mundo quando era mesmo ali que o mundo estava, o seu.

(“Histórias a Duas Mãos” resulta de textos escritos por duas pessoas: eu, a Gente com Histórias Dentro, e Regina Cardoso da Graça. O nosso ponto de partida será sempre uma ilustração feita num ápice para, também num instante, escrevermos aquilo que a inspiração do momento pretender. Uma dá o ponto de partida, a outra continua. Estaremos por cá às quintas-feiras.)

 

De uma ressaca que persiste

game

Reconheço. Finalmente.

Depois de tanto tempo a ouvir falar sobre a série Game of Thrones e de ignorar o que se dizia ou escrevia sobre o assunto (por falta de interesse, shame on me), decidi dar-lhe uma oportunidade.

O TV Series acenou-me com quatro temporadas e eu, que sempre preferi uma boa série a um filme, lá me sentei no sofá. O primeiro episódio não me convenceu logo, apesar de ter achado alguma piada ao Ned Stark e de me apetecer esbofetear qualquer um dos Lannister, desliguei a televisão e dormi sobre o assunto.

No dia seguinte “voltei à carga”. Terminei o primeiro episódio. Resumindo, viciei-me. Vi quatro temporadas de uma só vez (que exagero este “de uma só vez”, mas foi quase!).  Sim, é agressivo e sobretudo as duas primeiras temporadas deviam ter uma bolinha vermelha no canto superior direito do ecrã. Mas há tantas histórias dentro daquela história, tantos personagens que nos viram de pernas para o ar… Há tanto mais que me fez ver, ficar e, agora, ressacar.

Tal como acontece com os livros sobre os quais todos falam, demorei a pegar-lhe. E agora que lhe peguei, estou mesmo a ressacarPreciso da 5.ª temporada quase como se de água se tratasse. Estou a ressacar como aconteceu quando terminou Downtown Abbey ou até mesmo Mr. Selfridge, pese embora seja diferente: sei que há uma quinta, uma sexta e, para breve, uma sétima temporada. Que não tardem.

(Por aqui pouco se tem escrito. Tenho andado “por ali” a beber de outras histórias. Tanto mais se escreve quanto mais se ler, vir e ouvir. Talvez assim consiga encontrar a voz, a minha.)